terça-feira, 26 de abril de 2011

A Cartilha da Caminhada

 

Pensando no mês da Bíblia de 2011
Tema: A Cartilha da Caminhada
(Êxodo 15-18)

 


Nossa realidade nesse campo

A Bíblia é mais reverenciada do que conhecida. Houve muito progresso na leitura porque os nossos melhores biblistas de fato fizeram opção preferencial pelo povo. Mas ainda há muito desconhecimento da evolução da mensagem, da interpretação de acordo com o gênero literário e o contexto. De vez em quando deparamos de novo com aqueles velhos problemas que já deviam estar resolvidos. E, como hoje há mais liberdade para questionamentos, o catequista precisa estar mais seguro e atualizado.

O mês da Bíblia dentro da nossa Pastoral

Esse trabalho é

 Parte da pastoral de conjunto: a Bíblia é livro de todos

 Ligado ao que se faz durante o ano: CF, missão, catequese, organização paroquial...

 Um caminho de formação continuada

 Uma oportunidade para criar grupos bíblicos

 Um instrumento para valorizar o conjunto da Bíblia

 Um convite à oração a partir dos textos

A compreensão da Revelação na história

Nosso livro sagrado é especialmente “encarnado”, não veio do céu ditado por anjos. É fruto da percepção da ação de Deus na história. Ele vai sendo gerado por tradição oral e responde às necessidades de cada fase da caminhada do povo. Com isso, ele nos convida sempre a descobrir também o que Deus está nos comunicando agora, na história de cada um e da sociedade.

O Êxodo na tradição do Antigo Testamento

É um livro com um destaque muito especial. Ele trata do fato fundante mais básico da história de Israel. Se todos se consideram “filhos de Abraão” , as regras da vida judaica e a própria construção da identidade desse povo se alicerçam em Moisés. O próprio Deus se identifica a partir dos fatos narrados no Êxodo: “Eu sou o Senhor teu Deus, que te tirou do Egito, da casa da escravidão.” (Ex 20,1) E assim esse será lembrado, tanto em outros textos bíblicos, como nos momentos de aflição que o povo judeu viveu na sua longa história de perseguições e martírio.
No modo judaico de entender a história, todos os judeus, de todas as épocas, são chamados a se sentir presentes na libertação, na caminhada pelo deserto, na Aliança feita no Sinai.
Duas idéias são básicas e entrelaçadas no Êxodo: libertação e direito a uma terra. Ambas têm a ver com identidade. Ambas são interdependentes: de que serviria uma libertação sem o direito a um lar? E como esse lar seria diferente da escravidão se não se desenvolvessem aí valores de solidariedade, justiça e fraternidade?
Se quiséssemos comparar com o Novo Testamento diríamos que lá também temos duas idéias de efeito semelhante: redenção feita por Jesus (libertação do mal que pode nos seduzir e nos afastar de Deus e do irmão) e proposta de construção do Reino (uma “terra prometida” mais ampla, universal, definitiva).

A transmissão da mensagem gerando identidade e coesão no povo

A catequese judaica é – até hoje- narrativa. No Êxodo isso fica bem explícito: “E quando teu filho, amanhã, te perguntar: que significa isso? Tu lhe dirás: com mão poderosa o Senhor nos tirou do Egito, da casa da escravidão.” Ex 13,14
Na parte final do livro do Êxodo temos todas as recomendações para o culto, templo etc (coisas que evidentemente não poderiam ser feitas no “deserto” e configuram uma projeção do presente no passado). É de um modo muito bonito de dizer algo que os judeus repetem até hoje: a libertação liderada por Moisés não deve ser vista como um fato do passado. Todo judeu deve se considerar participante de tudo o que está descrito no Êxodo.
A tradição judaica diz que estavam lá até as almas dos que não haviam nascido.
Hoje, quando fazemos leitura orante, somos convidados a embarcar nesse tipo de viagem, a estar lá onde as coisas aconteceram. Isso é um instrumento poderoso na construção da identidade humana e religiosa.

A estrutura da narrativa do Êxodo

Podemos perceber 6 grandes blocos dentro do livro:


Evidentemente algumas partes desse texto não se relacionam de fato ao que podia acontecer no deserto mas projetam aí o que ia acontecendo depois do exílio com a reconstrução do templo. São fruto de uma tradição posterior, apresentada como algo alicerçado na história e na autoridade de Moisés. Tudo isso, porém, tem uma grande unidade porque se trata daquilo que constitui o fundamento da identidade do povo.

A parte que vamos estudar neste mês da Bíblia

Vamos tratar do segundo bloco, do capítulo 15 ao 18. É um período intermediário entre a libertação e o recebimento da Lei. É interessante chamar isso de “A Cartilha da Caminhada”´, um título que evoca nossa caminhada de hoje, a preparação para o discipulado mas também para a própria vida numa comunidade religiosa. O texto nos mostra algumas dificuldades, crises, dúvidas, mas também soluções que caberiam bem no nosso trabalho pastoral de hoje. É nessa ótica que vamos examinar o que o mês da Bíblia nos propõe.

Capítulo 15: precisam de água

Começa com um canto de louvor ao Deus “guerreiro”, ainda dentro do espírito do bloco anterior. É interessante observar que neste poema se pergunta “Quem entre os deuses é como tu? – algo que tem a ver com a gradual descoberta da identidade do Deus único, que se completará mais tarde.

Celebrada a vitória, agora os caminhantes têm que enfrentar as conseqüências da liberdade. Falta água no deserto. E agora? A água que conseguem encontrar é amarga. Na Bíblia a água aparece tanto como fonte de vida como de morte ( e até hoje não é assim?). Em qualquer conquista importante, de vez em quando vamos perceber que falta “abastecimento” ou que está a nosso dispor uma “água” que não é saudável. O povo resmunga nessa hora. E quem de nós já não viu algo parecido?

Moisés não resmunga, vai ao dono de todas as fontes. Deus lhe indica um jeito de tornar a água sadia. O texto relaciona essa água purificada com os mandamentos e leis do Senhor (que ainda não tinham sido solenemente entregues). Deus se apresenta como caminho saudável: Eu sou o Senhor que te cura. Não é uma cura milagrosa, no sentido sensacionalista, é a cura que vem de organizar a vida de acordo com os preceitos de Deus, que só quer o nosso bem e sabe o que é melhor para nós.

O capítulo termina com uma linguagem simbólica bem típica da Bíblia: chegam a um lugar com 12 fontes de água(número do povo, vida para todos) e 70 (sinal de plenitude no resultado da “água”) palmeiras.

Em nossa caminhada de hoje, poderíamos refletir:

 Que “águas amargas” de vez em quando aparecem? Como lidamos com isso?

 Em nossa catequese as leis de Deus aparecem como caminho de cura ou como testes de um juiz que pode nos ameaçar?

 Se quisermos fazer uma ligação com a CF: como andam as águas do planeta? O que fazer para que a terra seja esse lugar com “12 fontes e 70 palmeiras”?

Capítulo 16: as codornizes e o maná

De novo o povo reclama: “Quem dera que tivéssemos morrido pela mão do Senhor no Egito junto às panelas de carne e comíamos pão com fartura! Por que nos trouxeste a este deserto? Para matar de fome toda essa gente?” A maioria, ontem e hoje, quer conquistas fáceis e “confortáveis”, que não custem sacrifícios. Alguns talvez até prefiram opressão com acomodação, como o povo que vive querendo “favores” dos nossos parlamentares em vez de lutar por direitos. E lá se vai Moisés conversar com o Senhor. Deus manda as codornizes à noite e o maná no dia seguinte. É um sinal do que Deus fez e faz com a humanidade: Ele nos dá o que o ser humano precisa e muitas vezes nem sabe reconhecer.

Os estudiosos têm explicações menos “milagrosas” para as codornizes e o maná: as aves estariam em processo normal de migração, cansadas como seria normal e o maná seria algo natural produzido na região mas desconhecido para aquele povo. Isso não diminui, mas até enriquece a mensagem: Deus nos sustenta com aquilo que Ele mesmo já providenciou no processo “normal” da criação ( ou seja: teremos que agradecer pelo pão do nosso café matinal como o povo deveria fazer pelo “milagre’ do maná). Mas é preciso saber usar o que Deus nos dá.

Aí o texto vem com duas lições importantíssimas:

a) o recurso da natureza (representado no maná) é para ser usado , não abusado; é suficiente mas não deve ser alvo de ganância acumulativa; quem quer tomar demais para si vai ter um produto apodrecido. No uso dos bens que Deus nos dá temos que saber partilhar em fraternidade. A vida certamente será melhor e mais segura se todos tiverem o suficiente e ninguém quiser ser o “dono” do supérfluo.

b) Para guardar o sábado é lícito colher o dobro na sexta feira. Destaca-se o respeito ao sábado ( do qual até a natureza= maná faz parte) e indica-se a exceção por motivo justo. Isso nos faz até lembrar a fala de Jesus dizendo que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado.

Essa parte do texto foi bem trabalhada no texto base da CF 2011, aplicando-se aos recursos do planeta o que está simbolizado no uso do maná. Mas esse símbolo não serve só para a questão ecológica, diz respeito a todos os exageros egoístas que podem estragar a vida. Deus nos quer como uma grande família, onde todos cuidam de todos e ninguém busca acumular o que não precisa. A partilha e a necessidade de todos devem estar acima de qualquer acumulação egoísta. A questão do sábado também tem a ver, não somente com um tipo de adoração que um Deus exigente poderia desejar, mas com o bem de cada ser humano que precisa de ritmos significativos em sua vida. Nem só de “produção” vamos viver: precisamos de pausas, interiorização, enriquecimento interior. O sábado, nesse sentido, é mais um dom do que uma obrigação ( e que tal aplicar isso ao nosso domingo e nossa missa?)

Então caberia refletir:

 Como educamos para o uso fraterno e responsável do planeta?

 Percebemos (e ajudamos a perceber) as leis de Deus como algo que nos indica um modo melhor de viver?

 Vamos planejar a CF e o mês da Bíblia dentro de um trabalho orgânico, percebendo o fio condutor que une a reflexão?

Capítulo 17, 1-7: Olha a água de novo!

Falta água outra vez e o povo pergunta de novo: Por que nos fizeste sair do Egito? Em nossa caminhada também nãp é só uma vez que vamos sentir falta de algo essencial.

Falta confiança em Deus e reconhecimento da importância da caminhada que vai concretizar a libertação. Muita gente prefere acomodação, mesmo com horizontes bem estreitos, já sabemos.

Deus vai repetir o fornecimento de água, que dessa vez virá de um rochedo no monte Horeb (outro nome para o Sinai, o monte dos mandamentos) no qual Moisés vai bater com a mesma vara com que tinha feito prodígios no rio do Egito. O povo deve reafirmar a sua fé e sentir que Deus está com ele.

Reflexões para hoje:

 O que os Moisés de hoje deveriam fazer para que o povo se sinta acompanhado por Deus?

 Quais são as “sedes” que precisam ser aplacadas hoje com testemunho de amor e fraternidade?

Capítulo 17, 8-16: Sustentamo-nos uns aos outros?

No meio do caminho (como costuma acontecer na vida de todos) há uma batalha, há uma vitória que precisa ser conquistada. Os amalecitas atacam o povo. Josué fica no comando dos lutadores e Moisés, sinal da ligação com Deus, fica no alto da montanha de mãos erguidas. As mãos levantadas de Moisés levavam o povo á vitória mas quando ele se cansava o povo começava a perder a luta. Então Aarão e Hur, um de cada lado, sustentavam as mãos do líder e contribuíram desse jeito para a vitória.

Moisés apoiava o povo, Hur e Aarão apoiavam Moisés. Nossa vida, nossa pastoral, nossa família, nosso trabalho, nosso ecumenismo, nossa luta pela cidadania são batalhas assim, em que um precisa sustentar, apoiar o outro. Não dá para fazer grandes conquistas sozinho. Triste é a paróquia em que cada líder está sozinho, desligado dos companheiros! Pior ainda é quando, por ciúme, um se alegra com o fracasso do outro!

Reflexões para hoje

 A pastoral de conjunto, de que tanto necessitamos, exige uma espiritualidade que cultive o apoio mútuo. Estamos sabendo fazer isso?

 Quem já sustentamos em momentos difíceis?

 Como líderes, sabemos pedir socorro aos companheiros?

Capítulo 18, 1-12: Uma família se reagrupa

Jetro chega com sua filha Séfora e os dois filhos de Moisés (Gerson e Eliezer): a família se reúne, quer participar do que está acontecendo. A caminhada do povo é também a caminhada conjunta das famílias, que vão formar comunidade, que vão se ajudar mutuamente. Jetro era estrangeiro, sacerdote madianita, mas era sogro de Moisés e, como tal, faz parte da história do povo. Há partilha de notícias, Moisés conta a Jetro o que aconteceu na caminhada. O reencontro é celebrado com uma refeição comunitária, “na presença de Deus”.

Reflexões para hoje

 Como estamos contribuindo para a união das famílias?

 Como aceitamos em nosso meio a presença dos “estranhos, diferentes” que poderiam caminhar conosco?

Capítulo 18, 13- 27: distribuindo tarefas com equipes subsidiárias

Moisés estava tendo um comportamento centralizador, atendendo sozinho todos os problemas do povo, de manhã até a tarde. Jetro lhe diz que isso não está certo, que isso acabará esgotando Moisés e sendo ruim para o povo (por muito que Moisés seja visto como grande líder, íntimo de Deus, com uma história respeitável...). Sugere divisão de responsabilidades: homens de valor dentro do povo ficarão responsáveis como chefes de mil, de cem, de cinqüenta e de dez. E para Moisés ficarão só as questões mais graves, que exigirem uma autoridade maior. Moisés aceitou a orientação e assim foi feito. Depois Jetro voltou para sua terra.

Nem é preciso dizer o quanto, como Igreja, estamos necessitados desse exemplo. Uma pastoral de conjunto se faz com tarefas divididas mas não isoladas. Organização não é o mesmo que centralização. Se nem Moisés devia ser um “faz tudo” , o que dizer de nossas lideranças: Dar oportunidade a outros é, além disso, um caminho inteligente para descobrir talentos escondidos e alimentar a solidariedade fraterna. Os destinos do povo devem ser decididos por todo o povo porque o Espírito de Deus repousa sobre todo o povo e não apenas sobre alguns (Cf Nm 11, 24-30).

Reflexões para hoje

 Como anda a divisão de tarefas em nossas comunidades?

 Na hora de fazer um planejamento participativo, como as pessoas se comportam?

 Moisés recebeu bons conselhos de alguém de fora. Sabemos aproveitar talentos que estão além do nosso grupo?

Refletindo sobre esses aspectos, podemos fazer do mês da Bíblia uma oportunidade importante para crescer tanto no amor à Bíblia como na espiritualidade que nos faz ser comunidades fraternas e solidárias. Estamos também numa caminhada rumo a um outro tipo de terra prometida, um mundo melhor guiado pelos valores do Reino. Juntos estaremos mais seguros, mais felizes e mais capazes de realizar nossa missão.

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